Subscrever Newsletter
home » notícias e eventos » testemunhos

Rui Pedroso, Unidade de Saúde Dr. José Domingos Barreiro

«Temos de ter vontade de ser vencedores»

Rui Pedroso tem 35 anos e trabalha na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, na Unidade de Saúde Dr. José Domingos Barreiro, como técnico administrativo. Aos 7 anos teve um acidente de comboio, na sequência do qual perdeu as duas pernas e o braço esquerdo. Hoje em dia desloca-se com o apoio de próteses, vive na aldeia do Escaroupim, em Salvaterra de Magos, e trabalha em Lisboa. Esteve 13 anos num lar da Casa Pia onde estudou e tirou o curso de programador informático. Durante 16 anos praticou natação de alta competição, tendo alcançado, em 1995, o título de campeão do mundo. Tem uma filha de 7 anos, e está prestes a editar um livro que intitulou "Piadas de Mau Gosto". Conheça o testemunho de Rui Pedroso!

Associação Salvador (AS): Pode falar-nos um pouco sobre a sua rotina diária, no trabalho?

Rui Pedroso (RP): A minha profissão é na área administrativa e atendimento ao público e as tarefas que faço são atendimento telefónico, arquivo de documentos, marcação de consultas médicas, autenticação de receitas médicas, meios complementares de diagnóstico, entre outras. 

AS: Como surgiu esta oportunidade de trabalho?

RP: A oportunidade de trabalho surgiu a partir de um discurso que fiz no Hospital de Alcoitão, relacionado com o Ano Europeu Igualdades e Oportunidades para Todos. Um amigo meu, que ouviu o discurso, aconselhou-me a enviar o meu Curriculum Vitae para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e assim o fiz. Passado um mês fui a uma entrevista e consegui o meu actual trabalho.

AS: Teve outras experiências profissionais anteriores?

RP: Sim, já tive outros trabalhos. O meu percurso profissional começou com um trabalho onde eu era recepcionista no Centro Desportivo de Alapraia que pertence aos Bombeiros Voluntários dos Estoris. Depois, trabalhei ainda numa loja de informática em Lisboa. Seguiu-se um trabalho, como independente, na área de comercialização de produtos de higiene e limpeza. Trabalhei como escriturário numa multinacional dedicada à venda de material de escritório, trabalhei como escriturário para um talho e empresa de construção civil. E por fim cheguei onde estou agora a trabalhar.

AS: Alguma vez sentiu que as suas capacidades não foram reconhecidas, no mundo profissional, apenas por ter uma deficiência motora?

RP: Sim, já tive essa sensação. A sensação de que alguém não reconhece o nosso trabalho por se ser portador de uma deficiência. A grande crueldade humana, da actualidade, é o preconceito hipócrita com que as pessoas olham para pessoas portadoras de uma deficiência. Por exemplo já ouvi comentários tais como " vão-se todos embora e deixam aqui o rapaz aleijado sozinho..."! Se me deram a responsabilidade de poder ficar sozinho é porque entenderam que eu era capaz! Por fim também não existe o reconhecimento merecido, não só pelo comentário a que fui sujeito, mas também pelo trabalho que tive... por vezes bastaria apenas um obrigado.

AS: Que melhorias considera mais significativas, para a inclusão social?

RP: Muitas coisas melhoraram, como por exemplo, as barreiras arquitectónicas, os acessos aos serviços públicos, os transportes, as actividades físicas, mas o que se fez até hoje é ainda muitíssimo pouco. Há 27 anos que me tornei numa pessoa portadora de deficiência. Tive um acidente de comboio no Algarve, mais precisamente em Olhão, aos sete anos e meio, e fiquei sem as duas pernas e sem o meu braço esquerdo. Mas considero que há muita insensibilidade de certas pessoas.

AS: Foi necessária alguma adaptação específica no seu local de trabalho?

RP: Não foram necessárias quaisquer adaptações ao local de trabalho, porque eu sei adaptar-me às coisas com muita facilidade, e assim desempenho as minhas tarefas sem dificuldade alguma e na íntegra.

AS: Como é o seu ambiente de trabalho?

RP: O ambiente de trabalho é maravilhoso, muito divertido, mas, é também, um trabalho que exige muito de nós. Com muita angústia minha, não existem outras pessoas portadoras de uma deficiência física no meu local de trabalho. Até mesmo na adaptação social e de companheirismo eu sei adaptar-me muito facilmente e daí ter um óptimo ambiente de trabalho com todos os meus colegas e eles também souberam adaptar-se.

AS: Que mensagem deixaria a outras pessoas que têm deficiência motora, e neste momento estão desempregadas, à procura de emprego?

RP: A mensagem que posso deixar é que só se vive uma vez! Na vida as batalhas são muitas, mas a guerra é só uma. A nossa melhor arma é a nossa própria vontade. Temos de ter vontade de ser vencedores. E não é por uma batalha perdida, uma nega de emprego, ou pessoas que nos olham com preconceito, que nos farão sentir pequeninos. A vontade tem de prevalecer e sair vencedora. Devemos acreditar em nós, nunca desistir.

AS: Está para breve a edição de um livro. Pode falar-nos um pouco sobre este seu projecto?

RP: Sim, é verdade que poderá estar para breve a edição do meu livro. Apenas preciso de um patrocinador para o livro ser editado. Trata-se da história de um grupo de amigos, que após muitos anos sem se verem, decidem festejar e confraternizar no café da aldeia. E é então que, dentro dessa história, é contada a minha própria história de vida. Dentro de um singelo amor, um verdadeiro romance, que acabou por não vingar, mas que, ficou marcado para o resto dos meus dias. Este livro é dedicado à minha filha. O livro chama-se "Piadas de mau gosto...". É um livro de dez capítulos, aproximadamente com 245 páginas, nas quais eu fui introduzindo dez conselhos de coragem para que as pessoas possam aprender a viver com um pouco mais de coragem, alegria e amor entre elas. É ainda um livro que defende causas de solidariedade, através de constantes chamamentos à sociedade para melhorarem certos aspectos injustos que se passam nos dias actuais, tais como os maus-tratos às crianças, aos idosos, às mulheres, os racismos étnicos, a fome, o preconceito às pessoas com limitações físicas ou psíquicas, e por aí além. E torna-se ao mesmo tempo um projecto solidário, porque, dos livros que vender eu doarei metade dos direitos de autor para uma instituição de crianças até aos seis anos.

Aqui vos deixo um pequeno excerto do meu livro, apenas, para vos aguçar o gosto pela leitura do livro "Piadas de mau gosto..."

..."A vida é só uma! E, uma vida só faz parte de muitas outras vidas.

A vida passa num instante, como um fulminante suspiro de ar. E quando damos conta disso, já o tempo passou. E ela, a vida, ensinar-te-á a percorrer muitos caminhos. Simples destinos, com menos ou mais tormenta. Umas vezes será o teu Adamastor, e outras vezes, o simples viver como a Milagreira das Rosas que transformou as rosas em pão, apenas para o povo.

Mas no final de contas, saberás finalmente, que sempre valeu a pena. Que tudo não deixou de ser uma oportunidade ímpar. Apenas uma... e é algo tão divinal.

Justa, injusta!?

Sim, não, não sei... é preferível a viver, para se ficar a saber e a conhecer o quanto ela é portentosa.

Agarra-a com toda a força da tua mão, por que ela vai querer-te fugir, de tão apressada ser. Vive sofregamente inspirando todos os pedaços de vida que possas viver, com a harmonia do amor, o sangue-frio das alegrias e tristezas, e, em plena neutralidade contigo próprio.] ...

E assim visto a vida ser única, o conselho é nunca nos amedrontarmos, nunca desistirmos e principalmente, acreditarmos sempre em nós próprios."

 

 

 

Em resumo
  • Testemunho de Rui Pedroso, técnico administrativo na Unidade de Saúde Dr. José Domingos Barreiro
  • Contratação de pessoas com deficiência motora
  • Exemplos de Boas Práticas